Bom dia!
Estou aqui, estou bem, estou a full!
Mas ai!, hoje é o dia dos "NÓS", e acordei deste lado do mundo com o mundo a levantar a ombros as forças de uns e de outros, e isto assim é bonito e dá mais vontade!
Gosto do Diogo!, gosto da Luísa!, e gosto do Pedro, meu querido amigo, que dedicou alma e suor a escrever este artigo, a compreender as esquinas destas histórias de EM, com compaixão e respeito e seriedade e um tom de cabeça erguida que só faz juz a este nós com bola para a frente.
Acordei com o corpo inteiro num formigueiro de boas energias!
Este blog foi impulsionado pela SPEM – Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla, e pretende ser um espaço onde se
entornem discussões, novidades, perguntas, respostas, conversas, histórias e viagens – em redor da vida com Esclerose
Múltipla e Outras Coisas Também.
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quarta-feira, 29 de maio de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
Ano
Já me confessei melancólico-sentimentalóide com simbolismos; datas que marcam, cores que lembram, números que significam, gestos que representam. Gosto de voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles.
Ontem passei em revista este lugar, que cumpre agora 1 ano (Já?, parece que foi ontem! Só?, pareceu uma eternidade!); um levantar-da-voz-e-do-nariz em forma de blog cujo fôlego que se queria tornar eco de perguntas e interrogações, reptos e algumas-respostas, desafogamentos e fôlegos intermitentes, dores e gritos de ipiranga.
Gosto de dar passos atrás antes de saltar adiante. E por isso reli as linhas - as minhas e as vossas -, remastiguei as palavras, regurgitei as angústias, regargalhei os sentidos de humor em volta delas, repensei as dúvidas, voltei a suar os medos e as esperanças de ter pé de pé contra as correntes. Voltei aos passos dados no eoutrascoisas e remordisquei, rebelisquei, reabracei as vozes que se ergueram nesta mesa, imaginei as outras tantas (dois milhões de nós) que não falaram nem deixaram de (se) sentir.
Um ano em perspectiva: dois de diagnóstico, segunda medicação, dois pelo-menos surtos, seiscentaseoitentaesete picadelas no corpo, dois corta-agulhas, três diários de injecções, um semi-herói, quatro ressonâncias, uma dolorosa punção-monção-lombar. 13614 espreitadelas a esta mesa (10000 das quais creio pertencerem à minha mãe), 37 vezes levantada a voz, 186 contra-pontos, histórias desse lado.
A minha EM continua comigo, mas as minhas outras coisas trouxeram-me uma mudança de vida, uma viagem, um regresso, um (re)começo. Um início fresco e do zero - uma aventura em curso.
E se bem que o meu corpo se assemelha cada vez mais a uma peneira e tema rasgar pelo picotado, e saiba perfeitamente ao som de que canção escrevi o primeiro post e chorei os primeiros meses, dois anos depois custam menos. Às vezes. Tem vezes. Mas não tem todas.
E se bem que já acalmei os dentes ácidos que me mordiam por dentro, todas as horas de todos os dias, dois anos (segunda medicação, dois pelo-menos surtos, seiscentaseoitentaeagoraoito picadelas no corpo, dois corta-agulhas, três diários de injecções, um semi-herói, quatro ressonâncias, uma dolorosa punção-monção-lombar), continuo a não saber responder à maior generosa parte das perguntas já entornadas.
Terei mais surtos? Serão graves? Poderei ter filhos? Perderei memória?, pele?, pernas?, juízo?, prazer?, correrei amanhã, poderei andar, poderei amar?
O eoutrascoisastambém é ainda um lugar onde se continuam a querer entornadas discussões, novidades, perguntas, respostas (alguém as tem?), conversas, histórias e viagens - a tal mesa onde nos possamos debruçar – em redor da vida com Esclerose Múltipla e Outras Coisas Também.
Ontem passei em revista este lugar, que cumpre agora 1 ano (Já?, parece que foi ontem! Só?, pareceu uma eternidade!); um levantar-da-voz-e-do-nariz em forma de blog cujo fôlego que se queria tornar eco de perguntas e interrogações, reptos e algumas-respostas, desafogamentos e fôlegos intermitentes, dores e gritos de ipiranga.
Gosto de dar passos atrás antes de saltar adiante. E por isso reli as linhas - as minhas e as vossas -, remastiguei as palavras, regurgitei as angústias, regargalhei os sentidos de humor em volta delas, repensei as dúvidas, voltei a suar os medos e as esperanças de ter pé de pé contra as correntes. Voltei aos passos dados no eoutrascoisas e remordisquei, rebelisquei, reabracei as vozes que se ergueram nesta mesa, imaginei as outras tantas (dois milhões de nós) que não falaram nem deixaram de (se) sentir.
Um ano em perspectiva: dois de diagnóstico, segunda medicação, dois pelo-menos surtos, seiscentaseoitentaesete picadelas no corpo, dois corta-agulhas, três diários de injecções, um semi-herói, quatro ressonâncias, uma dolorosa punção-monção-lombar. 13614 espreitadelas a esta mesa (10000 das quais creio pertencerem à minha mãe), 37 vezes levantada a voz, 186 contra-pontos, histórias desse lado.
A minha EM continua comigo, mas as minhas outras coisas trouxeram-me uma mudança de vida, uma viagem, um regresso, um (re)começo. Um início fresco e do zero - uma aventura em curso.
E se bem que o meu corpo se assemelha cada vez mais a uma peneira e tema rasgar pelo picotado, e saiba perfeitamente ao som de que canção escrevi o primeiro post e chorei os primeiros meses, dois anos depois custam menos. Às vezes. Tem vezes. Mas não tem todas.
E se bem que já acalmei os dentes ácidos que me mordiam por dentro, todas as horas de todos os dias, dois anos (segunda medicação, dois pelo-menos surtos, seiscentaseoitentaeagoraoito picadelas no corpo, dois corta-agulhas, três diários de injecções, um semi-herói, quatro ressonâncias, uma dolorosa punção-monção-lombar), continuo a não saber responder à maior generosa parte das perguntas já entornadas.
Terei mais surtos? Serão graves? Poderei ter filhos? Perderei memória?, pele?, pernas?, juízo?, prazer?, correrei amanhã, poderei andar, poderei amar?
O eoutrascoisastambém é ainda um lugar onde se continuam a querer entornadas discussões, novidades, perguntas, respostas (alguém as tem?), conversas, histórias e viagens - a tal mesa onde nos possamos debruçar – em redor da vida com Esclerose Múltipla e Outras Coisas Também.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
EM para a rua, a luta continua
Os graus continuam a torrar-me as manhãs, e o sol das sete acordadas parece ter ocupado o lugar, bem no alto, do que deveria pertencer ao meio, pico do dia.
A aventura continua, e estou neste momento a trabalhar num hostel no coração do bairro de Palermo enquanto espero que as aulas do mestrado comecem. O ordenado é miserável, mas as horas são gozadas sem pressas nem confusões, entre as conversas com os viajantes que por ali passam e o tempo para ler, quando não passa ninguém.
A aventura continua - as outras coisas vão-se vivendo -, mas a EM nunca se deixa esquecer, e desta vez assumiu a sua forma mais detestável: a de "condição pré-existente", na sua vertente de alerta-vermelho para seguradoras e cautelopessimismo para qualquer qualquer cálculo de quota mensal a propor para um plano de saúde.
Pois é. Que a Argentina também tem um sistema nacional de saúde, mas - como imagino que muitos países também o façam - a Universidade exige-me, para minha ansiadinscrição, um comprovante de um plano de saúde válido no país (convido-vos a seguir o raciocínio: sem seguro, não há inscrição, sem inscrição, não há mestrado, sem mestrado, não há visto, sem visto, não há saúde que me valha!).
Diabos!, depois do batalhado ano a tentar arranjar maneira de furar a restrição de levantamento de injecções para poder emigrar, depois da suada espera para acabar o estágio da ordem e poder estudar o quero, depois das taquicardias da entrada no mestrado só à segunda tentativa, e uma pessoa tão sossegada pensando que agora-é-que-é, e pum! crash! plim! ploing!
É de mim ou isto está a começar a parecer uma novela indiana?
Lá me reuni com um assessor de seguros (gente tida como genericamente detestável, mas este era um amigo de um amigo e foi o tipo mais extraordinário do mundo), que me explicou a minha situação. Bom, não foi bem explicar. Depois de me ter explicado como funcionava o sistema de saúde argentino e o plano de saúde que tinha para me oferecer (e eu quase-contente com o requisito de inscrição quase-cumprido), lá lhe disse, nem mais nem menos ênfase do que aquele que se merece: "Bom, parece-me tudo lindamente, mas eu tenho uma particularidade: é que eu tenho esclerose múltipla. Algum problema?"
E com "ele explicou-me a minha situação", o que eu deveria realmente dizer seria "ele engasgou-se e ia caindo da cadeira ao chão".
Que, nesse caso, eu tinha uma condição pré-existente (acho que já vi esta expressãozinha ser dramatizada em filmes de hollywood, na mesma categoria de filmes sobre casamentos por conveniência e outros que tais), que a seguradora era, por lei, obrigada a aceitar-me, mas que as seguradoras se "protegiam" aplicando, nestes casos, valores de seguro altíssimos (assim enxotando). Que me iriam exigir a apresentação de TODO o meu historial clínico, com exames (tacs, rm's, sangues, potenciais), diagnóstico e declarações médicas e - esta é a melhor parte - prognóstico do meu médico.
Ora (com a devida vénia ao meu semi-herói) pedirem prognósticos sobre a evolução da EM dá vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo - tivéssemos nós prognósticos, pudéssemos nós saber as horas de amanhã (estaremos bem?, sentiremos o corpo?, poderemos correr amanhã?), e meia definição do que é ter EM se evaporaria.
A conversa com a boa alma terminou com uma franca confissão: "si un seguro para un tipo común te sale 800 pesos al mes, a vos te van a pedir, supongamos... unos 4000? no te quiero mentir, la verdad que no lo sé bien, pero las seguradoras no te van a tomar barato...".
Condição pré-existente... damn you. Como se não nos bastasse vivermos as horas na consciência dessa condição, condição da vida e das horas e dos sonhos, de um "e se" e de um "tudo bem, mas". Como se não fosse bastante viver forçando um optimismo nas guelras para poder respirar, um "vai correr bem" arrancado à bruta, puxado a meia voz rouca, entalado entre as expectativas e os medos, as horas passam e a voz a sussurrar, em modo de reza autista, "vai correr tudo bem, vai correr tudo bem", e estes miseráveis a puxar a sardinha ao e-se-corre-tudo-mal, vai ter de se submeter a uma auditoria, protegendo os calos já forrados a ouro, e eu cheia de bolhas furadas, precisamos de um prognóstico.
Ai querem um prognóstico? Também nós, mas são doces!
Bom, bom, teimosa como sou, na hora seguinte mandei cinco emails (ok, um deles foi aos paizinhos, em modo "help!, o que faço??"), e estou a estudar atalhos e alternativas que sejam economicamente viáveis. Porque isto vai-se resolver, porque há força para continuar a rezautista em voz alta e puxar à bruta quantos "vai correr tudo bem" sejam necessários para que assim seja, porque - porque tem de ser.
E as outras coisas também acontecem no meio das embrulhadas.
Ainda ri com a resposta da menina de uma companhia de seguros de saúde de renome à minha pergunta "têm seguros de saúde que cubram estadias no estrangeiro": "não, nao, dona catarina, nós só fazemos seguros de saúde, não reembolsamos viagens".
Ainda ri com a resposta da menina de uma companhia de seguros de saúde de renome à minha pergunta "têm seguros de saúde que cubram estadias no estrangeiro": "não, nao, dona catarina, nós só fazemos seguros de saúde, não reembolsamos viagens".
sábado, 2 de fevereiro de 2013
"É preciso recomeçar a viagem"
Lisboa soube bem, carregada de vinho quente a aquecer a alma e sóis de inverno que só Lisboa deixa escorregar. A família, a lareira da tia, os lanches da mãe, os primos e as galhofas de irmãos, as saudades não mortas mas potenciadas, as caras do costume nos lugares de sempre e noutros descobertos. Gosto de Lisboa e da sua luz, gosto de Casa e do extraordinário lugar-Comum que me são as colinas, os miradouros e as ruas.
Em chegando, "não me quero ir embora".
Em partindo, um inspirado, resfolegado "vamos a isso", que a aventura ainda não começou (?) e é tempo de dar firmes passos rumo a esta vida que escolhi, por agora.
Seis meses de injecções na mochila (e um molho de declarações juradas, certificadas, assinadas, fotocopiadas que não chamam qualquer tipo de atenção aos seguranças dos aeroportos, e eu bem podia ter cópias de bd da mafaldinha e dava no mesmo, que raio de segurança é esta que me tira garrafas de água fechadas no lixo - já para não falar nas tesouras das unhas, e como é que eu agora asseguro a manutenção das ditas - mas me deixa passar nos raios x com 180 agulhas altamente afiadas nos bolsos, suficientes, veneno tivessem, para aniquilar toda a tripulação e metade dos passageiros just for fun), dizia eu, seis meses de injecções nas mochilas com excesso de peso, as famílias em procissão para o aeroporto e uns quantos chegados ao coração a completar o circo da partida - que eu gosto de despedidas porque nelas as almas se apertam e choram e se abraçam e se amam além-adeus.
O inverno chuvoso dos últimos dias de Lisboa (a dizer "saiam-me da frente, vamos embora, aviemos!") deu lugar a um verão porteño de 38 húmidos graus, às janelas inutilmente abertas e aos dias passados de cabelo enrolado no alto do pescoço, a pedir brisa. Buenos Aires está deserta, e até aos dias lhes dá a moleza do calor, e não passam mas se deixam escorregar l e n t a m e n t e pelas moles horas. Curiosamente, o calor custa mas não acorda a EM, e tenho a absurda alegria de poder anunciar que os meus suados dias têm sido tão pegajosos e pesados como os dos restantes mortais.
Esperar - ah!, as esperas que também por nós esperaram - continua a custar. Conheci uma argentina que me disse que sou um "culo inquieto", e nenhuma novidade me estava dando, pois já sabemos os horários da casa: amanhã já devia ter chegado ontem, a vida devia acontecer ao compasso do meu discurso (atabalhoado, apressado, atrapalhado, atropelado) e as respostas às perguntas deviam ser imediatas (quando saiem os resultados do mestrado? quando posso passar a levantar os documentos? quando posso começar a trabalhar? quando podemos tomar um café? quando acontecemos?).
Quanta impaciência me corre neste corpo, quantos formigueiros me apressam o ritmo, querer viver, enxotar os medos das horas que ainda não conhecemos, estaremos bem?, sentiremos o corpo?, poderemos correr amanhã?
Sem pressas nem dias perdidos, corramos pois, caminhemos se apenas pudermos, mas viver é preciso.
"O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já."
Em chegando, "não me quero ir embora".
Em partindo, um inspirado, resfolegado "vamos a isso", que a aventura ainda não começou (?) e é tempo de dar firmes passos rumo a esta vida que escolhi, por agora.
Seis meses de injecções na mochila (e um molho de declarações juradas, certificadas, assinadas, fotocopiadas que não chamam qualquer tipo de atenção aos seguranças dos aeroportos, e eu bem podia ter cópias de bd da mafaldinha e dava no mesmo, que raio de segurança é esta que me tira garrafas de água fechadas no lixo - já para não falar nas tesouras das unhas, e como é que eu agora asseguro a manutenção das ditas - mas me deixa passar nos raios x com 180 agulhas altamente afiadas nos bolsos, suficientes, veneno tivessem, para aniquilar toda a tripulação e metade dos passageiros just for fun), dizia eu, seis meses de injecções nas mochilas com excesso de peso, as famílias em procissão para o aeroporto e uns quantos chegados ao coração a completar o circo da partida - que eu gosto de despedidas porque nelas as almas se apertam e choram e se abraçam e se amam além-adeus.
O inverno chuvoso dos últimos dias de Lisboa (a dizer "saiam-me da frente, vamos embora, aviemos!") deu lugar a um verão porteño de 38 húmidos graus, às janelas inutilmente abertas e aos dias passados de cabelo enrolado no alto do pescoço, a pedir brisa. Buenos Aires está deserta, e até aos dias lhes dá a moleza do calor, e não passam mas se deixam escorregar l e n t a m e n t e pelas moles horas. Curiosamente, o calor custa mas não acorda a EM, e tenho a absurda alegria de poder anunciar que os meus suados dias têm sido tão pegajosos e pesados como os dos restantes mortais.
Quanta impaciência me corre neste corpo, quantos formigueiros me apressam o ritmo, querer viver, enxotar os medos das horas que ainda não conhecemos, estaremos bem?, sentiremos o corpo?, poderemos correr amanhã?
Sem pressas nem dias perdidos, corramos pois, caminhemos se apenas pudermos, mas viver é preciso.
"O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já."
(José Saramago, Viagem a Portugal)
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
matEMática pura
É engraçado; tenho EM e sinto que, por isso, o mundo me deve o mundo. Como se já tivesse a minha quota de mala suerte atribuída e maldistribuída, e passasse a confiar, em jeito era-o-que-mais-faltava, que a vida me corra relativamente bem em tudo-o-mais. Sem caprichos nem mimos; apenas que não me toquem mais improbabilidades (1 em cada 2000 portugueses tem EM, E TINHA DE SER LOGO EU? Hum. Raios.). No fundo, uma dose imoderada e completamente irrazoável de recalcamento com o universo, como quem diz "já tenho a minha fatia, agora vai chatear outro", aleatório sim-senhor, mas com limites!
Como se tivesse ou devesse ter uma vacina kármica contra piolhos tropicais, pianos caídos de janelas, catástrofes naturais, acidentes aparatosos, rejeição académica, rejeição em geral, pé-de-atleta, doenças raras, crises existenciais e cortes de cabelo apocalípticos.
Como se tivesse ou devesse ter uma vacina kármica contra piolhos tropicais, pianos caídos de janelas, catástrofes naturais, acidentes aparatosos, rejeição académica, rejeição em geral, pé-de-atleta, doenças raras, crises existenciais e cortes de cabelo apocalípticos.
Que é difícil estar atento a três chatices ao mesmo tempo, e as chatices, como os raios, não deveriam bater na mesma terra duas vezes.
Claro, depois a vida acontece, as probabilidades desacontecem, e ai que rrrrraaaaaiva!, palavrão, pontapé-na-cadeira (é assim que se ganham unhas negras), como teve a vida o descaro de acontecer assim, que matemática é esta?
Claro, depois a vida acontece, as probabilidades desacontecem, e ai que rrrrraaaaaiva!, palavrão, pontapé-na-cadeira (é assim que se ganham unhas negras), como teve a vida o descaro de acontecer assim, que matemática é esta?
Raiosmepartam, que isto é uma luta constante que não acaba nunca, e eu só queria doisminutinhosdedescanso.
Vou somando azares em conta corrente imaginada para o efeito. Fico contente por saber que um dia vou ganhar o euromilhões, ser chamada para um emprego de sonho e ter uma casa com vista para o rio. Matemática pura!
sábado, 15 de dezembro de 2012
Nos entretantos, o corpo
Não sei se é do calor ou dos trabalhos de bricolage e carpintarias (sim, sim, os livres têm sido ocupados a pintar móveis comprados em promoção, montagem de tomadas eléctricas e sistemas variados, restauração de velharias apanhadas na rua e conserto de outras tantas coisas), mas tenho sentido o corpo inquieto.
Se cruzo a perna, deixo de a sentir aos cinco minutos, a mão anda ansiosa e fugitiva, e quer escorregar até ao fim da linha antes de cumprir com as letras que a mente comanda, e o braço também quer correr, galopar ao vazio, mas está quieto e repousado e se revolta por dentro, como latejando.
Tenho um burburinho sussurrando nos dedos, encurralado entre o desassossego e moleza natural dos dias quentes de janela aberta. De noite estico o corpo e sinto uma multidão em marcha nos músculos, como se estivesse correndo, como precisasse correr, e parada não consigo porque me efervesce a carne.
Tenho uma multidão que me corre as pernas em hora de ponta, quietas mas não sossegadas, gritando e apregoando em voz muda, como um mercado em frenesim sem som.
Felizmente, tenho também um Rodolfo, que acorda cansado comigo porque que fica comigo acordado nestas noites de multidão pelos veios das pernas, pelas vias da mão, e me adormece o burburinho e me acalma o desassossego dos músculos até a multidão dispersar, até eu cair de sono e, comigo, as dores da multidão que me corre pela pele.
Sorte não é não ter EM, não ter surtos, não ter dores, ter viagens, ter aventuras, ter palavras que enchem vazios, que a cada um lhe cabe o que lhe toca e a vida vai chovendo como pode.
Sorte é ter um "rodolfo" nas noites de dilúvio de bichos carpinteiros e multidão, que correm as pernas paradas e voam as mãos quietas como se a carne estivesse a acontecer por trás do que os olhos não vêem nem sente o coração.
Se cruzo a perna, deixo de a sentir aos cinco minutos, a mão anda ansiosa e fugitiva, e quer escorregar até ao fim da linha antes de cumprir com as letras que a mente comanda, e o braço também quer correr, galopar ao vazio, mas está quieto e repousado e se revolta por dentro, como latejando.
Tenho uma multidão que me corre as pernas em hora de ponta, quietas mas não sossegadas, gritando e apregoando em voz muda, como um mercado em frenesim sem som.
Felizmente, tenho também um Rodolfo, que acorda cansado comigo porque que fica comigo acordado nestas noites de multidão pelos veios das pernas, pelas vias da mão, e me adormece o burburinho e me acalma o desassossego dos músculos até a multidão dispersar, até eu cair de sono e, comigo, as dores da multidão que me corre pela pele.
Sorte não é não ter EM, não ter surtos, não ter dores, ter viagens, ter aventuras, ter palavras que enchem vazios, que a cada um lhe cabe o que lhe toca e a vida vai chovendo como pode.
Sorte é ter um "rodolfo" nas noites de dilúvio de bichos carpinteiros e multidão, que correm as pernas paradas e voam as mãos quietas como se a carne estivesse a acontecer por trás do que os olhos não vêem nem sente o coração.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
emigrante-com-net, emigrante feliz
Não não, não fiquei soterrada sob escombros físico-emocionais de um qualquer desastre natural ou psicossomático, nem perdi o amor à palavra ou à aventura, nem abandonei o sonho de Buenos Aires.
Foi precisamente por causa dele - do sonho - que desapareci por uns tempos; que ao vagaroso-doloroso processo de transformação do estado desempregado-desalojado-despapelado e semi-teso me esqueci de acrescentar um desesperado não-tenho-internet, característico de qualquer estado sem-lar que, até há pouco tempo, me definiu.
Mergulhei no pesadelo imobiliário do assina-contrato, entrega-chave, dorme-no-chão, contrata-água, contrata-luz, contrata-internet, só-daqui-a-três-semanas-señora, tem de ter bilhete de identidade argentino señora, mas eu sou portuguesa señor, e, depois de armar vários pés de guerra com o canalizador que-diz-que-vem-mas-não-vem (e eu com torneiras a pingar), com o serralheiro que-diz-que-liga-mas-não-liga(e eu com a janela sem poder fechar) e com várias companhias de internet que dizem que instalam mas não instalam (e eu sem mundo, señor!), saí f i n a l m e n t e do outro lado do limbo nesta bonita data de 12.12.12 com casa semi-montada, um colchão a fazer as vezes de sofá e uma recém-estreada rede de internet wi-fi que emite cânticos de glória por todo lar! Saudades, mundo!
Verdade-seja dita (o processo de emigração é, com efeito, vagaroso), esta é a única vitória do mês. Continuo sem papéis e demais carências; mas vejo a vida a acontecer aos poucos, entre uma mesa pintada à mão com cores garridas e gargalhadas, e o Verão que vai despontando na cidade e aquecendo as ruas e os suores. Sim!, Buenos Aires amanhece cada vez mais cedo e anoitece cada dia mais tarde, os sábados são de sol e os pés saiem à rua de chinelos, como os ombros que descalços vão. Continua a ser estranho reconhecer (?) nas montras, nas rotinas e na porta da vizinha da frente, um Natal a 40 graus de temperatura, mas é bom acordar com luz e sem lençol, preguiçar nos parques de Palermo, e jantar de janela aberta e abanico na mão.
Confessando o preguiçar, cabe-me também confessar uma novidade: pus um fim ao primeiro acto da minha curta carreira de camarera. Que o chefe era casca grossa e nos falava como se fossemos escravos comprados em promoção, e eu, que nesse dia até tinha a mão mais dormente do que o costume e estava de mal com a vida (e
o dia tão bonito e eu ali a suar de avental, e o outro a mandar
bitaites, e eu de mão dormente e com preocupações mais sérias, e o outro
a tecer considerações críticas sobre a qualidade da alma alheia, mas o que é que isso tem a
ver com o saco de farinha, e logo eu tão séria no meio de tanto
malandro, e agora viro alvo de ataque verbal, não estou para isto), decidi sem dar por isso: nem é tarde nem é cedo, ninguém tem de aturar isto, muito menos a mãozinha de enxota-nojos e as costas viradas, e logo eu que tenho EM e Mau Feitio, e que já me bastam para me chatear, e fui! Atirei com o avental a meio da tarde do lugar onde trabalhava, bati porta, e atirei-me eu à rua; recebeu-me uma liberdade com sabor a sol de verão e uma Buenos Aires palpitante, pronta a receber-me a full time nos seus dias.
E assim vem acontecendo a vida: com um salário no bolso e os dias mais livres, dedico-me agora a gozar o verão e a Cidade, enquanto preparo a casa para o(s) novo(s) ano(s) que aí chega(m) - pinta mesa, compra cama, uma manta ali e um pano aqui, faltam panelas, faltam copos, faltam pratos e somos 5 ao jantar, faz as contas e compra mais um, que para o mês que vem compramos dois, falta vir o canalizador e o serralheiro, mas o homem da internet já por cá passou. Preparo-me também a mim para a visita à terra-Mãe e terra-Casa, que o Natal é tempo de família e as injecções estão a chegar ao fim e é tempo de ir renovar o stock.
E claro: continuam a divertir-me os dias o sotaque argentino (che, boluda!, fijate si pasa el colectivo!), o totoloto dos dias de verão com os dias de dilúvio, os programas pontuais de uma cidade em constante estado de diarreia cultural (poucos, que o futuro é incerto e os pesos são contados) e a pergunta en serio que no sos argentina?? (ok, ok, eu me confesso: como se me abre o sorridorgulho, que tonta feliz!), e com isso se me alegra a vida, no espera-nãoespera, no vai-nãovai, no liga-nãoliga.
Para já, tenho casa e internet e sou, por isso, uma emigrante feliz!
E assim vem acontecendo a vida: com um salário no bolso e os dias mais livres, dedico-me agora a gozar o verão e a Cidade, enquanto preparo a casa para o(s) novo(s) ano(s) que aí chega(m) - pinta mesa, compra cama, uma manta ali e um pano aqui, faltam panelas, faltam copos, faltam pratos e somos 5 ao jantar, faz as contas e compra mais um, que para o mês que vem compramos dois, falta vir o canalizador e o serralheiro, mas o homem da internet já por cá passou. Preparo-me também a mim para a visita à terra-Mãe e terra-Casa, que o Natal é tempo de família e as injecções estão a chegar ao fim e é tempo de ir renovar o stock.
E claro: continuam a divertir-me os dias o sotaque argentino (che, boluda!, fijate si pasa el colectivo!), o totoloto dos dias de verão com os dias de dilúvio, os programas pontuais de uma cidade em constante estado de diarreia cultural (poucos, que o futuro é incerto e os pesos são contados) e a pergunta en serio que no sos argentina?? (ok, ok, eu me confesso: como se me abre o sorridorgulho, que tonta feliz!), e com isso se me alegra a vida, no espera-nãoespera, no vai-nãovai, no liga-nãoliga.
Para já, tenho casa e internet e sou, por isso, uma emigrante feliz!
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Enquanto Espero, Emigrante
Perdoem-me a ausência.
Tenho estado no limbo da Emigração: estado de espírito, de sítio e de necessidade, onde falta é a palavra de ordem (de tempo, de papéis, de trabalho, de dinheiro, de casa, de Casa).
das esquinas e das calçadas,
dos cafés e
dos costumes e dos miradouros
da minha Lisboa-quintal
Que o trabalho não sai sem papéis, e os papéis não se dão sem trabalho, e a casa não se paga sem o primeiro, e a Casa não se funda sem nenhum dos anteriores. Uno se siente em estado hipotérmico e vai-não-vai. Já podemos? Não? Esperamos.
Buenos Aires tem-me cuidado com o mesmo amor com que a recordava, e embora a vida esteja em modo hold (que todemigração parte da espera e do vagaroso-doloroso processo de transformação do estado desempregado-desalojado-despapelado e semi-teso para um desejado estável estado), a aventura já começou!
A Cidade é generosa, a facilitar dito processo: os amigos dos amigos têm ajudado com mãos, ideias e tectos: o chão dos primeiros dias, o colchão dos desalojados seguintes, a companhia nas burocracias, os contactos repescados, te lo averiguo, te quedás en mi casa, te acompaño a Migraciones, te hago circular el cv, te llamo.
Ao fim de um cumprido mês porteño, reúno já três pares de meias extra, um maté de couro, um apartamento reservado no centro da cidade, e - júbilo meu, que a boca tem fome, e o tempo se quer entretido enquanto o alarme académico não toca - um emprego temporário num café simpático no centro do charmoso bairro de Palermo, onde passo os meus dias de avental de chita, bandeja no alto e sorriso a fazer-se à gorjeta.
Caros: sou o protótipo de uma emigrante ilegal!
Pois é: e ao contrário dos agoiros e maus presságios, a mão dormente e a atrapalhação natural que caracteriza os meus bruscos gestos não me têm atraiçoado, e descubro franca vocação para o ofício: sou a melhor amiga dos clientes, duplicando um miserável salário em gorjetas, entretenho-me a ajudar turistas que não falam nem "oi" de espanhol, divirto brasileiros com o meu sotaque português "esquisito", aprendo artes circenses e malabares com a gestão dos copos e dos humores distribuídos nas mesas, e, apesar de trabalhar nove cadelas horas com apenas 40 miseráveis e sôfregos minutos de pausa, gosto da pinta do lugar, da esplanada e do terraço, dos brunchs e da gente-descansada que ali passa, de estar ocupada na espera e na falta (dos papéis, do trabalho, da casa, da Casa). E, porque não admitir, gosto da ideia de ter uns trocos ao final do mês para pagar a renda da casa que alugarei daqui a umas semanas.
Noto também que, entre a multi-funcionalidade das tarefas (numeração das mesas, recebe o pedido, pede na cozinha, limpa a mesa ao lado, traz o gelo, a salada é sem azeitonas, a pizza é com, três coca-colas, uma com gelo, uma com limão, uma light, dois cafés, um cheio outro cortado, quatro águas, duas naturais, calcula a conta, calcula o tempo, cancela pedido, limpa três mesas, distribui dois menus, a pizza ainda não chegou, faltam guardanapos, primeiro as bebidas, depois a comida) e a forçosa gestão psico-anímica dos intervenientes (bom dia, sorriso, piada, cliente mal-humorado, cliente mal-educado, chefe insuportável, só tens 40 minutos de pausa, nova mesa, sorriso, olá, como estão?, o sumo não sai?, a pizza está fria!, o chefe insuportável, olá, tudo bem?), não existem diferenças globais de exigências físicas e psicológicas entre as funções de um advogado estagiário numa grande firma e as de uma empregada de um restaurante fancy e requisitado em Palermo (excepto, talvez, no ordenado, but then again, tenho feito muito boas propinas).
Entretanto, também, matei saudades dos "trópicos" e recontextualizei-me: pois num dia estava semi-desmaiada junto a duas ventoinhas em alta potência, pingando suores e derretendo humores (e sim, eu me confesso, com as dormências chateando um pouco mais do que o costume), e, no dia seguinte, a temperatura baixou de 35 para 20 graus, e tive de mergulhar na água da chuva até aos joelhos para poder atravessar a rua e chegar ao trabalho (onde me mandaram para a cozinha porque parecia saída do mar e não estava apresentável. yup, chefe insuportável).
Assim me grita "bienvenida!" esta cidade, entre verão e ainda-não, entre não tenho casa e já tenho colchão, entre bebe café e serve café, entre bifes e matés, enquanto espero.
Estou feliz e estou com vontade.
Dou graças por ter vindo, e tenho a sensação renovada de estar a tomar os certos passos - e nao sei como me vão correr a vida, a saúde, as dormências e as sortes. Mas estes passos são certos, sem formigueiros nem hesitações. É aqui que vou - espero - gozar o meus próximos anos.
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Emigrantes, ponto zero
O Rodolfo disse-me, uma manhã; acho que temos de ir andando, e eu não posso negar que reagi com espasmos histérico-ansiosos - mas já?, mas como?, mas de certeza? O peito saltou, o sangue ferveu, borboletas-como-dinossauros-em-ácidos no estômago.
E ele escusava de me explicar o que eu já sabia: que os processos de recrutamento pareciam começar a espreitar, que no verão argentino (dezembro, janeiro e fevereiro) não ia acontecer nada, que começar em fevereiro era muito tarde e que a emigração, dado assente, deveria ser encarada.
Ai ai ai ai ai, pensei eu em calças rotas e t-shirt de publicidade XL recortada em coisa maneirinha, o turbante na cabeça e uma pinta muito pouco civilizada para habitar cidade em modo sem-mochila!
A coisa já fervilhava e nos esperava e nos chamava. A coisa estava aí. E eu bem sei que os nervos são coisa pouco amiga dos formigueiros (não cansar, não stressar, não emocionar, não excitar, não agitar, não ansiar) - mas os primeiros estavam ao rubro, e os segundos quietos.
Sem alternativas de senso comum, antecipámos a coisa: comprámos um voo de última hora, arrumámos a mochilas, contámos os pares de meias (eu tenho 3, e tu?), comprámos uns jeans de fraca qualidade e bom preço para compor a figura, e fomos. A emigrar oficialmente, a BUENOS AIRES!
Sem alternativas de senso comum, antecipámos a coisa: comprámos um voo de última hora, arrumámos a mochilas, contámos os pares de meias (eu tenho 3, e tu?), comprámos uns jeans de fraca qualidade e bom preço para compor a figura, e fomos. A emigrar oficialmente, a BUENOS AIRES!
Caros: cheguei a Buenos Aires no dia 11 de Outubro - e eu não dizia que gosto de simbolismos?, de datas, de cores vestidas, de gestos e rituais? Nem de propósito: aterrei na minha cidade querida, retornada e pronta para o duro processo de parto de todo-emigrante, no exacto dia em que cumpri dois anos de diagnóstico.
Já?, parece que foi ontem!
Só?, pareceu uma eternidade!
Percebi a coincidência na véspera do embora, disse-o ao Rodolfo, abracei o Juan sem vontade de partir, nervosa e séria, e entrei no avião.
Depois de uma viagem inquieta e de uns 'pssst' grunhidos ao velhinho que roncava como um javali-sem-mãe em cima de mim, aterrámos na Argentina às seis de uma manhã amanhecida com sol e mediaslunas, e uma grande sensação de renascimento e dia novo. E se tenho um surto em plena Argentina? E se acontece alguma coisa? E se a "eleita" decide agravar-se do outro lado do mundo?
Mas ai!, não se imagina a luz da minha cara! Nem a morada errada que levava da minha amiga Paula (e a meia hora que demorei a aperceber-me disso), nem o facto de, entrenervos, lhe ter dito que chegava na sexta e não na quinta (e a meia hora que demorei a aperceber-me disso), nem nada, nada; o estado ansiolítico rapidamente se tornou em alma, vontade, sorriso pateta mirando la ciudad acabada de acordar.
Não emocionar, não excitar, não agitar, não ansiar?
Não, continuo a não saber como se faz isso.
AQUI ESTOU. Para o que vier, retorno a esta maravilhosa cidade, para estudar direitos humanos; para a viver e a gozar com mais tempo, mais calma, mais ânimo. Mais saudades de Casa, o sentido da língua-pátria e saudade-terra mais crescido, e - a grande novidade? - com uma EM novinha em folha; com direito a injecções diárias, pés de lã com os se's, regressos semestrais para consultas de rotina e papeladas para as necessárias doses.
Mas com a sensação de que estou a fazer um caminho certo, e a EM que se adapte, que esta é a vida que eu escolhi.
Mas com a sensação de que estou a fazer um caminho certo, e a EM que se adapte, que esta é a vida que eu escolhi.
Emigrantes, oficialmente - com direito a cansar, stressar, emocionar, excitar, agitar, ansiar.
Acho que acabei de desmaiar de nervoseuforia.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Era uma vez a Colombia
Há história difíceis de contar, e a da Colombia é uma delas.
A Colombia (minha Tierra querida) é mãe de um povo que amo, povo-família, povo-casa, senhor de uma amabilidade inigualável e gentileza sem fim, a la orden, que le vaya bien, como amaneció?, muy gentil, para servirle, senhora?, que dios la bendiga.
Dentro desse povo está a boa alma de um Amigo que me dedicou uma amizade e uma ternura sem limites nem compreensão, parida em jeito precoce com poucos meses de gestação, e aquecida à distância com mais pensamentos que palavras, mais rezas que conversas e mais coração que café.
Dentro deste povo estão as almas de todos os membros desta família-casa, de todas as famílias-casas, a avó que nos responde ao milésimo gracias do dia com um apaziguador tranquiiiiila encolhido nos ombros, a diana que põe a cafeteira ao lume assim que nos ouve os passos matinais no andar de cima, a família bravo-pacheco que abre espaço à mesa de qualquer-hora, o alejandro que nos acompanha todas as ruas e todas as conversas, os jantares de família que nos acolhem sem timidez, a mãe do juan que me cumprimenta e não me larga a mão, si se acorda de mi?, a mãe da mariann que me deseja várias vezes a cura e que me olha como se mergulhasse em mim adentro, os irmãos, os primos, os tios, os amigos, de um lado, do outro, às avessas.
Dentro deste povo estão todas as almas anónimas que se adentram na viagem de uno. Não pude completar uma viagem de autocarro, barco, lancha, canoa, pés, sem conversa puxada pelo ser do lado, pergunta, curiosidade, en serio?, interesse; e há uma certa inocência na facilidade com que soltam as indagações interiores em voz alta, sem timidezes nem falsos pudores.
Mas em todas estas almas, também reconheço outras histórias, partes daquela História que é demasiado complicada. É que dentro deste povo, também há uma história difícil, convivida a diário e em modo actual, mostrada nos jornais, nos testemunhos, nas primeiras e mais óbvias perguntas estrangeiras.
A violência da história colombiana - do narcotráfico, das guerrilhas, dos grupos paramilitares, do exército, das tentativas de pacificação mais violentas que o próprio soneto - é devastadora por dentro e perseguida com o olhar por fora, e marca como sangue pisado a alma do povo querido.
Bastaria contar a história da Luisa, colombiana emigrada aos states (como mil outros peregrinos do american dream, de que os próprios irmão da mariann são exemplo) e regressada à terra-mãe, que teve de mudar de distrito para que a filha - que falava inglês nativo e chamava a atenção - não fosse recrutada à força pelos paramilitares, como uma boa aquisição; as amigas da Luisa disseram-lhe, um dia: "Luisa, mejor que se vaya". E a Luisa foi.
Bastaria contar a história do guerrero de dios, velhinho terno e encarnecido que conheci numa hospedagem familiar em Cartagena, de faces tatuadas com manchas azuis de prisão e discurso meigo e empático, mais tarde confessado paranóico e vigilante, dados os 18 anos de comando superior de um grupo de paramilitares (YO apazigué Cartagena), de uma vida vivida na selva (no puedo dormir en la cama, me duermo en el suelo, qual patriarca do marquez), e de 12 anos de prisão por massacre (massacre, dito sem expressão); o mesmo velho senhor que tinha ataques de ansiedade e suores frios de quando em quando, e que me abraçou na despedida e me desejou mil graças com as mãos apertadas.
Em Cartagena, vimos três exposições de crudíssima fotografia sobre os refugiados internos e sobre as aldeias sobreviventes sob ameaça múltipla. Nos jornais, todos os dias correm a tinta as notícias sobre os quase-acordos de paz, o quase-fim, as quase-negociações. Nos tribunais, começaram a ser reivindicadas as devoluções dos terrenos expropriados pelos grupos armados nos últimos muitos-anos.
O problema ainda existe? Claro que sim (e posso dizer isto agora, sã e salva das leoas da familia).
Mas continua a não ser essa a história que quero contar. A Colombia é, acima de tudo, família, casa, pão, amor. É uma terra amável para os que lhe são estranhos, que os recebe e os acolhe à mesa, com humildade, com curiosidade, com humanidade. É uma terra onde se dança a dois, e onde se ensina a dançar quem troca os pés, um lugar que conjuga no mesmo espaço a selva amazónica, os picos nevados, as terras coloniais, as cidades-metálicas, o caribe e a montanha; os pretos, os brancos, os assim-assim, os índios, os mestiços, os retintos e os indistintos. A Colombia é surpreendente, mesmo da segunda vez.
Saio da Colombia - sim, sim, saio da Colombia (para onde?, já verão) - como sempre, a custo. Cheia de amor e de respeito e de admiração por esta tierra querida e por este povo extraordinário.
A história complicada, a seu tempo, se resolverá. Assim espero.
El riesgo es que te quieras quedar.
(video oficial)
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Cartagena-Maravilhosa
Depois de uma aventura (pouco) gozada no veleiro, encostámos amarras no cais clandestino de um bairro de lata e zinco, e apanhámos uma lancha até à Cidade: depois de muitas horas em estado de semi-desidratação (que a água também se vomita, descobriram alguns) e pele estufada pelo sol, mais uma estupidez de voa-saltos que nos deixou, por fim, na praia suja de Boca Grande, encharcados até aos ossos, gargalhando nossas caricatas figuras. Espremidos e retorcidos, a segunda ironia da tarde chegada foi perceber que os pés em terra firme, ao fim de dois dias em dança-balança, também enjoam. Várias horas passariam até que pudéssemos recuperar a estabilidade própria da alma e do ânimo.
Prossigamos... Cartagena de Indias. Continua extraordinária. Exótica, caprichosa, decadente, magnífica.
Lembro-me de ter lido há uns anos qualquer coisa sobre o sexo das cidades, e de como a sua arquitectura, as suas linhas e a cadência nelas gerada, as definiam como cidades masculinas, viris, energéticas ou femininas, sensuais, misteriosas. Não me lembro do caminho teórico, mas Cartagena é, definitivamente, uma mulher de botero: exuberante e debochada.
Jóia da coroa do império colonialista e porto-rei das rotas de comércio de outros tempos, a cidade tornou-se símbolo de luxo e decadência, com um toque de romantismo.
A cidade amuralhada repousa lad'a'lado com a zona moderna, em irrepetível exagero e harmonia - como dois tons estridentes que se condizem. As pedras e as madeiras envelhecidas, os tectos dos palácios coloniais e dos casões senhoriais, as palmeiras maduríssimas, as flores estridentes, a torre do relógio, batem certo com o tom de extravagante "miami" que os sublinha, ao fundo, seus arranha-céus brancos e seus envidraçados modernos. Em comum, o tom de sumptuosidade, de ostentação e de exotismo.
Jóia da coroa do império colonialista e porto-rei das rotas de comércio de outros tempos, a cidade tornou-se símbolo de luxo e decadência, com um toque de romantismo.
A cidade amuralhada repousa lad'a'lado com a zona moderna, em irrepetível exagero e harmonia - como dois tons estridentes que se condizem. As pedras e as madeiras envelhecidas, os tectos dos palácios coloniais e dos casões senhoriais, as palmeiras maduríssimas, as flores estridentes, a torre do relógio, batem certo com o tom de extravagante "miami" que os sublinha, ao fundo, seus arranha-céus brancos e seus envidraçados modernos. Em comum, o tom de sumptuosidade, de ostentação e de exotismo.
Entre-muralhas, as ruas são estreitas mas sólidas, as casas majestosas, as varandas imponentes, e delas continuam a cair em chuva as mesmas flores garridas. As portas altas de madeira trabalhada continuam abertas - porque Cartagena é quente todos os dias e todas as noites - e as gigantes ventoinhas continuam girando nos tectos, que são de não menos de quatro metros, altíssimos e frescos. Os cafés mais populares dão portas abertas para duas ruas, e parecem frescas arcadas, mas têm tecto e têm portadas que se encostam, encaloradas, nas paredes dos almoços que ali se servem, a mesma carne com arroz e feijão de sempre.
Fora-muralhas, as ruas são estreitas, porque encolhidas entre arranha-céus, majestosos, modernos, limpos, rodeados de hoteis de cinco estrelas, casinos e clubes nocturnos.
Fora-muralhas, as ruas são estreitas, porque encolhidas entre arranha-céus, majestosos, modernos, limpos, rodeados de hoteis de cinco estrelas, casinos e clubes nocturnos.
As paredes da cidade amuralhada são garridas e bem pintadas - amarelos torrados, vermelhos de sangue, azuis fortes, como as calças de algodão do suado homem cor-de-azul - preto pretíssimo - que dança frenético na Plaza de San Domingo; os arranha-céus de Boca Grande são brancos e envidraçados, ao jeito Calatrava (ponte da Mulher, Gare do Oriente...), como combinados dominós jogados no tabuleiro.
Escolhemos entre-muralhas: dormimos numa casa velha, de cozinha antiga e varanda em ruínas, com os cotovelos na rua e um fantasma regular, alma perdida de uma dama antiga que gosta de passear pela tijoleira partida e buscar companhia na casa que em tempos habitou. Diz-se também que as paredes escondem mapas e ouros, escondidos aos piratas que se abordavam no horizonte, e que, mortas as familias, os piratas fugiam ao mar, e as paredes ficavam para trás, recheadas de história e de incógnitas.
As ruas à noite transformam-se e a cidade resulta fantasiosa, boémia e extrovertida. De dia, os cafés, as boutiques, as frutarias, as padarias, e as pretas na rua a venderem talhadas de manga e papaia melancia, tudo é exótico e tudo é calor, as pessoas vestem-se de branco e de cores e soltam suspiros e cantigas pelas esquinas.
Descrever Cartagena é roubar-lhe em palavras aquilo que a cidade-mulher (mulher voluptuosa, descarada, majestosa) mostra, toda-oferecida, em sentido, cadência, compasso.
Já ouvi dizer que não se pode morrer sem a Nápoles.
Eu acho que não se pode morrer sem ir a Cartagena.
As ruas à noite transformam-se e a cidade resulta fantasiosa, boémia e extrovertida. De dia, os cafés, as boutiques, as frutarias, as padarias, e as pretas na rua a venderem talhadas de manga e papaia melancia, tudo é exótico e tudo é calor, as pessoas vestem-se de branco e de cores e soltam suspiros e cantigas pelas esquinas.
Descrever Cartagena é roubar-lhe em palavras aquilo que a cidade-mulher (mulher voluptuosa, descarada, majestosa) mostra, toda-oferecida, em sentido, cadência, compasso.
Já ouvi dizer que não se pode morrer sem a Nápoles.
Eu acho que não se pode morrer sem ir a Cartagena.
Marinheiros de água doce
Não havia dúvidas: era ir!
Depois de quinze dias divididos entre as vilas de café
plantadas nas três caudas colombianas dos Andes, e as vilas de peixe debruçadas
na beira-mar do Darién, o passo seguinte pousaria na magnífica e decadente
Cartagena de Indias, que eu ansiava repisar. As voltas por terra eram longas,
os transportes careiros, e a oportunidade surgiu: cruzar o mar desde
Sapzurro e entrar na cidade em veleiro? Quarenta horas de mar-alto? Antes
fossem quatro dias, e melhor seria. A ideia pareceu-nos ousada, romântica
e original, e comprou-nos de imediato.
Reforçámos o carregamento de arroz, cenouras
e água, e esperámos que Lucho, el Capitán, desse o aviso de partida, lido
no céu e nas tempestades de véspera.
Lucho, el capitán, carinhosamente baptizado Capitán
Catalán, era um catalão de 50 anos, estatura quixótica, pele
curtida pelo vento e veias engrossadas pelo sal que lhe entrou sangue
adentro. Abandonou a pátria e a aborrecida profissão de fotógrafo
(pausa para suspirar), e, depois de uns anos em voltas dadas em cargueiros de
pesca de bacalhau nos mares do norte, comprou um pequeno veleiro azul, que
baptizou de Kawama (que diz que é uma espécie de tartaruga) e
veio dar voltas para mares mais quentes. Para sobreviver, leva turistas de
Cartagena a San Blas, no Panamá, e para viver, faz travessias atlânticas que
lhe agitam o peito e lhe deixam histórias. Dono de um discurso ébrio e
desarrumado - por personalidade e pelos oito charros diários que fuma -,
Lucho ganha uma surpreendente lucidez quando avalia a tempestade que ainda nao
acalmou ou faz as contas à agua necessária para cinco grumetes e 40 horas.
Chicos, que mañana nos vamos, ciciou o capitan, ao fim de quatro esperados dias.
Lá partimos, os cinco bravos (nós, dois urugaios
e uma sueca-romena) e o seu capitao, cheios de vontade no peito e luz nos
olhos.
Dois dias num veleiro? Uma aventura!
Ver o céu em alto mar? Magnífico!!
Chegar a Cartagena de Indias, junto à torre do
relógio, de barco e com o vento?? Irrepetível!!!
E irrepetível foi, como vos passarei a contar.
Nos primeiros vinte minutos de viagem, pressentimos o
enjoo - mas pensamos, já já nos habituamos ao embalo do mar.
Ora!
O vento não movia um cabelo e o veleiro
não velejava nem cortava as ondas, mas se limitava a seguir o passo lento
do mar e de um motor ligado em primeira velocidade - sobe a onda, desce a
onda, sobe a onda, desce a onda, eu via a proa a subir e descer num vagaroso e
enjoativo compasso, e com ele todos os meus orgãos a flutuar. Olhar o mar
revoltava o estomago, fixar o barco revirava a cabeca, fitar o chão era
chamada ao vómito a pés juntos. Os cinco entusiastas que subiram a
embarcação em sorrido alvoroço correspondiam aos cinco cadáveres calados
que tentavam concentrar-se num ponto fixo no horizonte, cada no seu e entregue
à missão individual de minimizar o enjoo do barco, suores frios,
expressão ausente, só o capitao cantarolava, entre charro e anedota - o
cheiro adocicado dos primeiros piorava fortemente o enjoo generalizado, e as
segundas ja nao eram ouvidas ou respondidas. Uma divertida miséria! Três
vómitos depois (nenhum meu, faço notar, embora não me possa gabar de
grande rigidez de disposição), o sol a pique, os corpos amontoados junto ao
mastro para partilha de sombra, o nosso estado dava vontade de rir a quaisquer
deuses - coisa que de vez em quando acontecia, se cruzávamos os olhares e nos
consolávamos: so faltam 30 horas, gargalhada, sarcasmo. Estávamos
qual anedota de náufragos!
Cozinhar?, qual quê!, que a cabine triplicava o enjoo,
como caixa de fósforos em movimento, e entrar nela era (como o
comprovaram dois anónimos) vómito-certo!, mas também não importava, que a
comida não era benvinda aos delicados corpos descompostos, e só o
capitão continuava a enfardar, dada a fome dado o charro (e já lá iam
dez). E quem diz que me conseguia concentrar e manter o pulso firme para me injectar? Tive de fechar os olhos para não enjoar ao fixar na caneta azul e encarnada - ao mesmo tempo que fazia um esforço tremendo para não deixar a mão ser embalada pelo enjoativo vai-vem das ondas, do barco e do universo girando à nossa volta.
Uma trágico-comédia!
Avistámos, enfim, Cartagena, como uma miragem no
deserto, rindo de alegria e das nossas figuras - dois dias no mar, e nós feitos
farrapos humanos!
Ainda assim, nem tudo foi apocalíptico: no meio do
flagelo marítimo, vimos cardumes de peixes voadores sobrevoando o mar, que
são como borboletas gigantes com escamas, e
houve espectáculos de saltos de atum; e houve um momento, um momento
breve, em que apareceram golfinhos junto ao barco, e, exibicionistas como só os
golfinhos e os homens são, se encostaram à proa, o Lucho gritava-nos, assobiem
que se deixam provocar, e nós assobiávamos (bom, eu não, que
não consigo nem chamar um cão velho), e eles saltavam mais e davam
piruetas, e nadavam junto à proa, em corrida connosco. Nesses brevíssimos
minutos, perdemos a descomposição, corremos à proa, assobiámos, rimos,
parecíamos miúdos, nós e os golfinhos, infantis, brincalhões, efusivos.
Valeu a pena passar o cabo das enjoadas tormentas para
ver golfinhos a saltar? Talvez.
Valeu a pena, certamente, para saber que
o não voltarei a fazer - e afirmo-o divertida.
Vale certamente a pena poder olhar para trás, depois
das patéticas e cómicas horas de horror, e rever-nos a entrar no barco de cabeça erguida e corações
ao alto. Pobres nós!
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