O Caetano Veloso canta “Sou
tímido e espalhafatoso...” e eu acompanho-lhe o verso, calçando a mesma meia.
Não parto só copos. Eu
entorno cafés (cerca de um em cada três dias), copos de vinho (com especial
aptidão para vinho tinto em toalhas brancas), quaisquer taças com mais de 3 cm
de altura (as quais tendem a conter líquidos ou matérias migalhosas e/ou
pegajosas), todo o tipo de vasilhame de elegante pé (compreenda-se a difícil
relação de pesos e gravidades envolvida) e, de um modo geral, qualquer recipiente que
seja inadvertidamente situado (por mim mesma, inclusive) a metro e meio das minhas mãos (a ginástica dos meus movimentos pode ser surpreendente).
Com
a mesma “graciosidade”, tropeço. Caio na calçada, nos buracos, em pedras
imaginárias, nas calças (true story!), nos sapatos, nos atacadores que nem
tenho. Caio. Minto, geralmente não chego a encostar a cara ao chão, mas antes
faço aquele número dos quatro passos em quase-queda, com o queixo a fazer tangentes
ao chão e o ar aflito do aiaiaiquecaio, e lá me componho, envergonhada (mais
valia cair efectivamente – há poucos momentos mais embaraçosos na vida de uma
pessoa do que estes do aiaiaiquecaio).
A
cereja no topo deste bolo de harmoniosos gestos é o meu falar – que também se
enrola, tropeça, quatro-palavras-quase-numa-só, entre gaguejo, absurda
velocidade e compulsivos gestos que me acompanham, é muito comum que as pessoas
levem o seu tempo a habituarem-se às minhas palavras, sem repetirem dois “o quê??”
por cada frase minha (ou sorrirem aflitos e acenarem com a cabeça, mas os olhos
denunciantes, aflitos na total incompreensão).
No
trabalho, o meu carinhoso "nome de guerra" é Graulhaulhau,
ternamente inspirado no diabo da tazmania, a quem me compararam pelo reboliço
com que falo, ando, corro, gesticulo ou simplesmente estou. É como se tivesse
uma daquelas rodas de movimento rápido dos desenhos animados, mas em todas as
pontas dos meus gestos e das minhas palavras.
E
acaba por ter graça. É - sempre foi - a minha atrapalhada, desastrada forma de ser para fora - o tal espalhafato
aos tropeções colado ao meu feitio, graulhaulhento, barulhento, inquieto,
irrequieto, nuncaquieto.
E
depois chegou a EM. E passei a interromper a gargalhada que acompanha a queda,
os cacos no chão ou o café na camisa branca às 9 da manhã, com a pergunta aos
botões: afinal... é Defeito ou Feitio?
É mesmo difícil definir as
fronteiras da EM – e viver bem com isso.
No Verão passado,
passeava-me eu de socas e calças larguelefantes (destas onde cabemos 3 vezes), e
descendo um ridículo degrau (com a altura do dedo grande do pé), tropecei nas
ditas calças, caí das socas, e de repente estava de joelhos no chão, esfolada, dorida e vexada.
A queda, em si, não foi especialmente espalhafatosa, nem eu estava propriamente
desabituada daquele tipo de incidentes – e sempre me safei do aiaiaiquecaio -,
mas a pergunta-dos-milhões “Defeito ou Feitio?” assaltou-me imediatamente a
cabeça, tive um ataque de choro como se tivesse 2 anos e tivesse acabado de
cair num parque de gravilha. Caía (tropeçava/atabalhoava-me a falar/partia
copos/entornava cafés) por Defeito ou Feitio?
Onde poiso a fronteira do
“que engraçado, a Catarina está sempre a entornar coisas” para o
pensamento-para-botões “descoordenação de movimentos, sim, faz parte da
lista de Emices” – traço muito sem graça.
Qual é a fronteira entre o cansaço normal
e a sintomática “fadiga crónica”? Qual é a diferença entre ter o mau feitio e as
medicamente assinaláveis “alterações de humor”?
Defeito ou feitio? É a
diferença entre ter alguma graça ou não ter graça absolutamente nenhuma!
Defeito ou feitio?
E claro que não páro quieta, e perguntei ao meu médico: Como distinguir?
E o meu médico respondeu-me “E
o que é que isso importa?”.
(Embora não esteja
totalmente convencida, é por estas e por outras que lhe atribuí, com a B., o
cognome de Semiherói.)